segunda-feira, 18 de julho de 2016

Agrotóxicos VS saúde pública no Brasil



Beber Glifosato, chuva de veneno em comunidades rurais, sementes híbridas, biomas inteiros substituídos pela monocultura e o império das transnacionais. O que tudo isso tem em comum, em um cenário marcado pela fragilidade do limite entre os interesses privados e a saúde de um país inteiro? Você deve estar se perguntando agora o que é o Glifosato. Mesmo sem saber do que se trata, provavelmente você já consumiu este produto em algum alimento produzido no Brasil. O Glifosato é uma molécula sintetizada pela Monsanto e já foi empregada em lavouras em grande parte do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), este produto é carcinogênico e causador de diversos outros males à saúde. Na esteira destas informações, questionamos: O que podemos classificar como alimento hoje, no Brasil, quando o modelo vigente de agronegócio é historicamente minado pela insustentabilidade socioambiental? O uso massivo de agrotóxicos na produção de alimentos deixa como rastro a contaminação desenfreada da terra, dos vegetais, da água, do ar e de comunidades inteiras, revela o dossiê feito pela Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Publicado em 2012 e atualizado dois anos depois, o documento tem a intenção de ser um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde pública, reunindo informações de livros e trabalhos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Em mais de 600 páginas, o dossiê aponta uma realidade muito diferente da que alardeia o poder público quanto às benesses do agronegócio.
Mutações genéticas em recém-nascidos e as centenas de mortes pelas comunidades rurais do Espírito Santo, como denunciado pelo jornal Século Diário no ano passado. As chuvas de veneno da Aerotex sobre as crianças de Pontal do Buriti, em Rio Verde, Goiânia. As contaminações do solo, da chuva e até do leite materno descobertas no interior do Mato Grosso, em 2011, pela pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Danielly Palma. Apesar da gravidade destes episódios, nenhum deles é novidade ou, sequer, caso isolado. No estudo feito pela UFMT foram coletadas amostras de leite de 62 voluntárias do município de Lucas do Rio Verde, um dos campeões em produção de soja no Brasil. As coletas foram feitas entre os anos de 2007 e 2010 e o resultado foi a contaminação de 100% das amostras com pelo menos um princípio ativo. Nos casos mais graves as mulheres chegaram a apresentar até 6 tipos diferentes de veneno no leite materno. Encontraram DDE (derivado do DDT), Endosulfan, deltametrina, trifularina, todos com potencial para causar malformação fetal e abortos conforme a OMS. O estudo revelou também que o aumento da incidência de malformação por mil nascidos na região subiu de 5 para 20. Longe de gerar constrangimento para o setor, isso se tornou comum na prática do agronegócio, que prioriza o uso do solo para a produção de commodities e consome mais de 1 bilhão de litros de agrotóxicos por ano, segundo a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Conforme a agência reguladora, atualmente 64% dos alimentos no Brasil estão contaminados com agrotóxicos. Pimentão, morango e pepino ocupam o topo do ranking, com 91%, 64% e 57% de contaminação.

O que deveria ser fonte de vitaminas, substâncias antioxidantes e nutrientes importantes para o metabolismo humano, converte-se em vetor de princípios ativos causadores de diversos males a saúde, denuncia o dossiê Abrasco. Entre os anos 2000 e 2012 o aumento do uso de agrotóxicos no país foi de cerca de 288% (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola - Sindag). Enquanto isso o faturamento das indústria do setor aqui foi de cerca de 12 bilhões de dólares (Associação Nacional de Defesa Vegetal- Andef). Já o montante de registros por intoxicação deste tipo de produto acumulou 34.147 incidências. Isso somente entre os anos de 2007 e 2014, de acordo com o DataSUS, do Ministério da Saúde.
Fungicidas, pesticidas, inseticidas e herbicidas, todos eles tem como principal finalidade atacar a vida como um todo. Gerando uma reação em cadeia de efeitos nocivos, estes biocidas vem provocando desequilíbrios ecológicos, alerta o dossiê. O documento revela que os mitos de modernidade, progresso, emprego, segurança alimentar e renda escondem uma realidade obscura que pretende ser negada e afastada da opinião pública. Realidade que pode ser comprovada por números e evidências científicas da relação entre uso de agrotóxicos e problemas de saúde. Trazidos pelo dossiê, os estudos e estatísticas apontam que não é por falta de confirmação dos efeitos nocivos às pessoas e ao meio-ambiente que o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil não é combatido. "O uso de agrotóxico no Brasil alcança cifras muito grandes, a gente tá consumindo um bilhão de toneladas por ano e a gente sabe que a estrutura de governo federal e estadual está muito aquém de enfrentar esse volume de venenos do ponto de vista de monitoramento”, explicou Luiz Cláudio Meireles, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fiocruz do Rio de Janeiro, em entrevista ao portal de notícias G1. Meireles destacou ao portal que o Instituto do Câncer (INCA) se posicionou, no ano passado, para estabelecer uma ligação entre o agrotóxico e a doença. “A dificuldade que nós temos é determinar a ligação entre uma substância e um determinado tipo de câncer, por exemplo. Mas, sabemos que quando comemos estamos ingerindo um conjunto de agrotóxicos que vai repercutir na saúde durante anos". O pesquisador participou da elaboração do Dossiê Abrasco e, segundo reportagem veiculada no programa Globo Rural, da Rede Globo, em 2012, foi afastado de um cargo de gerência da Anvisa, naquele ano, por denunciar irregularidades na liberação de seis tipos de agrotóxicos.


Transnacionais e o monopólio do mercado brasileiro

BASF, Bayer, Monsanto, Syngenta, Dow e Dupont dominam cerca de 70% do mercado mundial de agrotóxicos. Aqui elas também dominam, abocanhando aproximadamente 75% da venda de defensivos no país a cada safra. As gigantes do setor acabam comprando as empresas menores ao longo do tempo, tanto de agrotóxicos, quanto de sementes, formando assim monopólios e oligopólios. Estes são dados apresentados no 2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação, organizado pela Anvisa, em 2012.
Perpetuando uma realidade desfavorável para toda uma nação, a venda casada de sementes transgênicas com os pacotes agroquímicos está perfeitamente alinhada ao interesse privado destas transnacionais, como denuncia o documentário de Silvio Tendler, O Veneno Está na Mesa II, de 2014. Agora o lucro descomunal delas não apenas fortalece o oligopólio anglo-europeu, mas também faz a sociedade questionar o que, de fato, entendemos por desenvolvimento. Se o melhor alimento é aquele mais contaminado, então que tipo de critérios regem as políticas de saúde pública no Brasil? O trabalho realizado para a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida nos refresca a memória ao recordar que a tecnologia empregada na “revolução verde” é a mesma usada nas guerras que assolaram o mundo durante o século XX. Para Vandana Shiva, física e ativista ambiental indiana, os produtos químicos que inundam a alimentação mundial não podem gerar outros resultados senão doenças e morte. "A indústria do agronegócio não produz comida e nem coopera com a natureza. Na realidade ela opera uma guerra contra a natureza, transferindo para a agricultura os venenos inventados para matar outros homens na guerra. Pesticidas, herbicidas, agente laranja. Produtos químicos significam a morte de pessoas, não é de espantar que elas continuem morrendo" (extraído de O Veneno está na Mesa II). Segundo ela, é preciso lutar para proteger a diversidade e a integridade das sementes nativas e lutar também pelos direitos dos agricultores. A ativista defende a necessidade de resistir e desafiar os monopólios de propriedade intelectual ilegítimos de empresas como a Monsanto, que, para ela, faz engenharia genética somente para exigir patentes e royalties



São permitidos aproximadamente 434 ingredientes ativos de agrotóxicos no Brasil, conforme a Anvisa. Entre os 50 mais utilizados, 22 são proibidos na Europa, na África e até na China, mas graças ao lobby das transnacionais com os nossos políticos e artimanhas jurídicas, eles permanecem sendo largamente empregados nas plantações do país, conforme dados da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida. Em 2008, a agência iniciou uma reavaliação do uso de 14 substâncias utilizadas na fabricação de mais de 200 agrotóxicos que, segundo o dossiê Abrasco, podem causar câncer, má formação fetal, problemas pulmonares e distúrbios hormonais. Dessas 14 substâncias, até o momento somente cinco foram proibidas (endossulfam, triclorfom, cihexatina, forato e metamidofós). Duas delas foram mantidas no mercado, mas com restrições de uso (acefato e fosmete).

Carbamatos e organofosforados X índice de suicídios em Venâncio Aires

Nos anos 90, conforme matéria veiculada no Jornal Folha de São Paulo, em 2014, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou uma pesquisa levantando a hipótese de haver relação entre os altos índices de suicídio e o uso de agrotóxicos organofosforados (composto orgânico usado no controle de pragas) nas lavouras de fumo. Segundo o periódico, em função de toda a polêmica gerada com o assunto, um projeto de lei foi encaminhado ao Congresso Nacional com a intenção de proibir este tipo de produto em 1997. Contudo, o PL 2691/97 acabou sendo arquivado após a análise em plenário mesmo depois de ter sido aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara (CCJ), o que ocorreu somente em 2011. Curiosamente, antes da aprovação pela CCJ, o projeto havia sido rejeitado pelas comissões de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias; e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, conforme o site da Câmara dos Deputados.
O aparente descaso do legislativo em transformar em lei a iniciativa abafou a discussão com o passar do tempo, enquanto isso o uso dos agrotóxicos se alastrou pelo país. Quanto a possível relação entre os suicídios de Venâncio Aires e o uso ilegal de organofosforados, o chefe de escritório da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), de Venâncio Aires, Vicente João Fin, acredita que não haja conexão entre os fatos. “Não há estudos científicos que estabeleçam esta ligação”, argumenta. Não é o que aponta o dossiê Abrasco quando o assunto são os carbamatos e os organofosforados, mas opinião semelhante é lugar comum entre representantes de outras entidades, como a Associação dos Fumicultores do Brasil (AFUBRA). O gerente técnico da Afubra, Paulo Vicente Ogliari, afirma que esta relação não pôde ser comprovada até agora. “São mais de 600 municípios que produzem fumo no Brasil, se houvesse alguma conexão deveria haver a incidência também em outros”. Na mesma linha de raciocínio a assistente social do Serviço de Atendimento Psicossocial de Venâncio Aires (CAPS), Rubia Bucallo, destaca que o Caps não leva em consideração o uso de agrotóxicos no tratamento dos casos de depressão. “Não fazemos a abordagem do problema desta forma. Acreditamos que os quadros de depressão e suicídio estão mais relacionados com a rigidez da cultura alemã e com o trabalho pesado da lavoura do que ao uso destas substâncias”.

Mas ao mesmo tempo em que o Caps procura não levar em consideração a utilização destes produtos por parte dos pacientes (mesmo com a hipótese de eles estarem ligados ao problema), a cidade de Venâncio Aires permanece no primeiro lugar do ranking de suicídios no Brasil. Entre 2006 e 2010 foram 79 casos. O trabalho duro e estafante das lavouras de fumo, a rigidez da cultura e a pressão da indústria quanto aos níveis de qualidade do produto, tornaram os casos de intoxicação pelo uso de agrotóxicos históricos na região. Fumicultor desde a infância, Adair Treissig, herdou dos pais o trabalho na lavoura no distrito de São Martinho, interior de Santa Cruz do Sul. Ele conta que, mesmo observando os cuidados na aplicação dos produtos, foi vitima de intoxicação há 17 anos. “Fiquei internado por três dias”, relata o produtor, lembrando que sofreu com os sintomas na época. Sem poder apostar em outra culturas, Treissig admite que diversificaria a produção caso fosse possível. “Não temos o que fazer, o trabalho é pesado, mas não temos outra opção”.
De outro lado, Irineu Saath, de 48 anos, também foi criado na lida do fumo, em Rincão de Nossa Senhora, no município de Passo do Sobrado. Mesmo trabalhando há tantos anos nas lavouras, Saath conta que nunca teve qualquer problema com agrotóxicos. “Sempre observei as orientações da fumageira e sempre usamos equipamentos de proteção também. A rotina é dura, mas nós não temos outra alternativa”. Assim como Treissig, Saath afirma que também mudaria de atividade se houvessem alternativas lucrativas. “É assim mesmo, não temos muita escolha. Além do fumo plantamos milho também, mas o principal é o fumo”, enfatiza o agricultor.
Uma das causas desta realidade, para o chefe de escritório da Emater é que o chamado sistema integrado faz com que o agricultor se torne refém do pagamento do ágio. “Há que se questionar se há a lucratividade do produtor para que se mantenha a propriedade, atenda suas necessidades e possa garantir a próxima safra. Ele se obriga a contrair os insumos com a promessa de grãos futuros”. Fin afirma que isso acaba afastando o produtor de outras empresas que poderiam ofertar diferentes oportunidades. “Ele paga os insumos mais caros, pois só vai pagar lá na frente, e fica refém dos produtos ofertados pelo sistema integrado, que nem sempre são os mais adequados”.
Somando-se ao quadro de ineficiência e uso equivocado dos defensivos, temos questões delicadas relacionadas a Anvisa, como demonstra o documentário de Silvio Tendler (O Veneno está na Mesa II). Segundo o estudo, a agência foi criada em 1999 e, mesmo tendo a função de entidade reguladora, a instituição acaba por ter grandes dificuldades para exercer suas atribuições. O chefe de escritório da Emater salienta que a Anvisa não apenas sofre pressão dos poderes executivo e legislativo para a liberação de princípios ativos, mas também dificulta o registro de produtos orgânicos ou de ação natural. “Quando você vai registrar um produto de baixo impacto ambiental, você não tem oportunidade por que a Anvisa segue uma legislação rígida. Por outro lado, quem tem capacidade para bancar tudo isso são as grandes empresas. A facilidade para grupos econômicos de grande pressão existe sim!” Fin destaca que, neste caso, a lei acaba se transformando numa faca de dois gumes, pois dá vazão a escassez de produtos alternativos para o uso nas lavouras. Com todos esses elementos no jogo, os interesses do agronegócio se sobressaem facilmente aos da saúde pública para o representante da Emater. “Não tenha dúvidas. A pressão do poder econômico, a falta de conhecimento técnico, além do problema da aceitação de produtos proibidos vindos de outros países, favorecem essa situação.”

A Agroecologia como alternativa

Desde 2008 o Brasil vem ocupando a primeira posição no ranking dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Como prova disso a quantidade de veneno consumida pela população brasileira tem aumentado ano após ano, alcançando atualmente a cifra de 7,2 litros anuais por cada brasileiro (ANVISA). Vicente João Fin, chefe de escritório da Emater de Venâncio Aires, relata que este quadro se agrava pela falta de orientação e conhecimento por parte dos agricultores. “Às vezes a venda se dissocia da realidade. Às vezes o produtor esta ainda implantando a lavoura quando adquire o produto. Fazendo o pacote antes da hora e sem o conhecimento técnico ele acaba realizando aplicações inadequadas e acima da quantidade necessária”. Segundo Fin, as políticas inadequadas dos órgãos competentes, aliada a pressão econômica das transnacionais tornam o cenário ainda mais problemático. “Muitos produtos que lá fora (exterior) já foram proibidos, são trazidos pra cá. Se no país de origem esse produto tinha cinco ou seis anos de eficiência, falando hipoteticamente, aqui já cai pra três, mas mesmo assim é trazido para cá. Ou seja, é uma forma de desova e isso é um grande agravante”.
Agravante perigoso, quando o assunto é a saúde de milhões de pessoas. Conforme Susan Arthus, gerente assistencial do Hospital São Sebastião Mártir, as secretarias de saúde e agricultura trabalham orientando os produtores quanto ao uso adequado de EPI´s (equipamentos de proteção individual). A gerente enfatiza que, mesmo assim, os casos de intoxicação continuam a acontecer. “Elas trabalham no sentido de orientar os agricultores no uso adequado de EPI´s, bem como as dosagens adequadas para que não reverta a intoxicação ao consumidor. Contudo, até a data de hoje, já contabilizamos 4 incidências de intoxicação no município.” De maneira diversa a do CAPS, Arthus acredita que a prevenção também deve levar em consideração outros fatores, além de instruções sobre dosagem e manuseio. “Quando falamos do trabalhador é preciso ter atenção quanto a situação ou condições cognitivas e psicológicas das pessoas que estão em contato com o material.”

Mesmo tendo como pano de fundo o sombrio império das transnacionais, nem tudo é veneno no mundo da agricultura. Como um alento para quem pretende se beneficiar de uma alimentação livre de contaminação, vemos a popularização da agroecologia em iniciativas como as do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA). De acordo com Augusto Weber, integrante do CAPA, respeitar o meio ambiente é um dos princípios básicos desta forma de cultivar o solo. “O alimento agroecológico é produzido sem agrotóxicos, adubos químicos, solúveis, sintéticos ou sementes transgênicas. O Agricultor respeita o meio-ambiente, pois é preciso ter conhecimento de todo o contexto para que tudo dê certo”. Para evitar pragas sem o uso de materiais artificiais, Weber conta que a agroecologia trabalha todo o meio no qual o alimento é produzido. “A diversidade nesse caso é fundamental. Os agricultores utilizam a rotação de culturas e não investem em apenas uma.”
O CAPA Santa Cruz do Sul desenvolve seu trabalho prioritariamente junto a grupos de agricultores e agricultoras familiares, destacando a inclusão de gênero e de diferentes gerações, conforme o site da organização. Weber comenta que a entidade atua junto a grupos urbanos e indígenas, escolas e universidades, com destaque para as escolas Família Agrícola e Colégio Teutônia. Tudo visando a abertura de espaços especiais para inclusão da juventude nas atividades do Centro. Segundo ele, rotação de cultura, adubação verde e práticas de agrofloresta são alguns dos métodos da agroecologia. “A gente sempre estimula que os agricultores utilizem ao máximo os insumos naturais da propriedade, como esterco bovino, suíno e de aves, entre outros. As alternativas existem!” E para quem acredita que a agroecologia não pode produzir alimentos de qualidade em grande escala, o profissional garante que é possível. “O que existe é a dificuldade de produzir os alimentos fora da época a qual eles normalmente são próprios. Mas existe produção agroecológica em grande escala sim, existem diversas propriedades fazendo isso atualmente. Além de mais saudável, existe uma grande diferença no sabor”.
Weber orienta que, para se ter certeza de estar comprando produtos realmente livres de veneno, além da confiança no produtor, o consumidor pode procurar pelo selo da Certificação Orgânica. Ele explica que as linhas de ação trabalhadas pelo CAPA são várias. Na lista estão a agroecologia, organização cooperativa, agroindústria familiar, comercialização, sociobiodiversidade, meliponicultura, resgate e preservação de sementes crioulas, educação para promoção da saúde (com enfoque nas plantas bioativas), alimentação saudável e saúde comunitária. “Para que o atual modelo do agronegócio seja substituído, mesmo que num futuro ainda distante, é preciso haver uma mudança na mentalidade do agricultor. É preciso que mude a forma de pensar dos produtores rurais, que eles não apenas queiram partir para a produção agroecológica. Esta mudança é o primeiro para a substituição do atual modelo”, conclui o profissional. Para mais informações acesse o site da entidade no endereço eletrônico www.capa.org.br.

domingo, 17 de abril de 2016

O início do Fim



Tendo como pano de fundo este dia 17 de abril, data importante para o Brasil em vista do que está ocorrendo no Congresso Nacional, sai cedo e fui fazer compras para o almoço. Enquanto caminhava até o estabelecimento comercial, a vários metros da entrada, já se podia escutar alguém vociferando contra Dilma e os programas sociais, especificamente o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Ao entrar no recinto notei que dois senhores brancos, entre 55 e 60 anos, discutiam o tema com certa indignação. Preferi ignorar o que falavam já na chagada, pois não concordo com a maior parte do que eles diziam. Fiz minhas compras e ao me dirigir ao caixa o proprietário do estabelecimento, que não irei identificar, perguntou minha opinião: “E ai? O impeachment vai ou não para o Senado?” Contudo, antes que pudesse responder, um dos senhores que discutiam com grande entusiasmo interviu, raivoso: “Enquanto não botarem um militar lá, esse país não muda! Tu não vai mais poder sair com tua família, se sair vai ter ‘neguinho’ pronto pra bater tua carteira!” Olhei para ele e senti um certo desprezo, confesso. Mas preferi o silêncio. Agradeci ao dono do mercado e sai, pasmo com tudo que havia escutado em menos de 5 minutos. Aquilo, somado a visão de Michel Temer como chefe do executivo, me fez pensar. Na verdade, mais do que pensar, a situação me impeliu a escrever.
Creio que, num primeiro momento, quando nos deparamos com discursos desta categoria, não acreditamos imediatamente na existência desta impressionante capacidade de iludir multidões. Lembrei-me então de Freud e de seu sobrinho, Edward Bernays, e conclui que, sim, ela existe. A realidade é que, na ordem dos milhões, as massas são, de fato, manipuladas através de artifícios muito bem estudados. Além de estudados, postos em prática ao longo da história, não apenas da América Latina, mas no mundo todo. “Dividir para conquistar”, é uma estratégia básica de quem tem interesses econômicos e políticos em um determinado país. Enquanto um povo se digladia por quaisquer que sejam as ideologias, vai se abrindo espaço para uma realidade ruim para todos. Sem capacidade de ler nas entrelinhas, o cidadão comum se polariza, assumindo a defesa de um dos lados do conflito. Até mesmo os mais letrados escolhem um lado e logo põe em jogo quase tudo para provar que seu ponto de vista está correto. As vezes está disposto a discursos de ódio e a chegar às vias de fato, alimentado por informações e opiniões enlatadas e com o prazo de validade vencido. Um dos recursos dos “conquistadores” é justamente esse. Utilizar a fragilidade do ego de cada personagem da trama, por mais ínfimo que ele seja. E isso é fácil, por mais que você não acredite, os caminhos para essa conquista são a propaganda ideológica, informações direcionadas pelos medias por longos períodos, campanhas corporativas de relações públicas. Em suas limitações particulares são explorados também os políticos demagogos financiados por empresas, partidos políticos comprometidos com o capital internacional e isso, claro, culmina em dominação estrangeira dos mercados nacionais. O que, por si, é sintoma de que algo está errado há muito tempo. Tudo isso, somando-se as estatísticas mentirosas que beneficiam principalmente aqueles que lucram com estes números. Mas quem seriam esses conquistadores? O vasto capital internacional organizado, multifacetado e implacável. Eles não tem rosto, nem nome. Tem apenas interesses econômicos de longo prazo, lobistas e serviços de inteligência a seus comandos. Enquanto isso, 99% dos cidadãos de um país caminha, cheios de palavras de ordem e com a sensação de estar cumprindo seu dever, para um futuro sombrio.
O curioso, ou trágico sob certo ponto de vista, é que o ufanismo dos indivíduos adquire um ar bastante funcional para quem os manipula, pois percebe que seu plano vai de vento em popa. Como dividir um povo? Enfraquecê-lo ideologicamente, minando suas bases políticas com dinheiro fácil e favores de luxo? Agindo na surdina, colocando os peões do executivo e legislativo no bolso, um a um? Estabelecendo vínculos escusos com o judiciário e ganhando terreno nas políticas econômicas para drenar o máximo possível de recursos? Promovendo um alcance tão exemplar da corrupção a ponto de a corrosão da infraestrutura do estado ser tão evidente como uma fratura exposta? Talvez sim. Isso e muito mais, sem dúvida, pois uma avaliação à queima roupa como esta jamais alcançaria o nível de sofisticação do sistema internacional de corrupção que assola o Brasil. É isso mesmo. Nosso país é uma peça importantíssima de um sistema internacional de corrupção. Enquanto este sistema não ruir, não existe futuro limpo para o Brasil. No entanto, chegamos até aqui devido a uma prolífica e duradoura relação entre corruptos e corruptores. Catapultada pelo fato de que, por trás das titulações de nossos políticos, existe uma mediocridade inesgotável, uma avidez insaciável por dinheiro. Eles dão e fazem tudo o que for necessário, tudo mesmo, por uma gorda propina. Às vezes vitalícia. Um prato cheio para os absurdamente ricos lá de fora e um nervo exposto para um povo inteiro. A ignorância disso tem tido como resultado o avanço gradativo de projetos infames das transnacionais, como transformar a água do Rio Amazonas em commodity para ser negociada nas bolsas de valores mundo afora. É muito provável que nossos netos enfrentem uma batalha pela água durante este século, considerada o “ouro azul” (BLUE GOLD), pelo capital estrangeiro.
Só que essa ignorância não é por acaso. Está sendo construída há décadas, pois nossa educação foi entregue pelos políticos, em todos os níveis, aos banqueiros internacionais no século XX. O futuro que se vem desenhando desde então não é positivo para o Brasil. Para o povo quero dizer, pois a classe política e os grandes executivos lucram demais com isso. O que se tem em mãos, com a queda ou não do governo Dilma, não é solução para os problemas do Brasil. Se você acredita que a crise financeira que vivemos é culpa do PT, reveja seus conceitos, pois o buraco é muito mais embaixo. Há muitas crises em curso. O PT apenas as agravou. Crise econômica, moral, ambiental, política, educacional, social, cultural, crise na saúde, na segurança pública, nas estradas, na alimentação. Em cada favela brasileira há uma crise em curso agora mesmo. E isso é responsabilidade de cada um dos governos que o Brasil teve, pois a corrupção é endêmica e sempre foi assim. É desse modo que funciona. No entanto, a única crise que queremos afastar, de fato, é a financeira. O resto é o resto. Paradoxalmente, como se não existisse, a dívida pública ainda está lá, crescendo diariamente e ninguém vai para as ruas lutar contra ela. As políticas neoliberais, mesmo em governos aparentemente de esquerda, nunca deixaram de ser seguidas e vão continuar assim, quase ninguém se arriscando a contestá-las. Principalmente os cidadãos, às vezes tão polarizados, mas ignorante de quase todo o resto. O que se nota, sim, são centenas de deputados, senadores, vereadores, governadores e prefeitos a defendê-las. Não existem políticos interessados em romper com esses tenebrosos mecanismos de assalto ao nosso país. Ninguém se atreve a levantar a questão. Você lembra o resultado da CPI da Dívida Pública, em 2010? Se não lembra, vale a pena revisitar o caso.
O duro é que o sistema político, mesmo que o Brasil proteste de ponta a ponta, não será reformado de maneira significativa. O sistema de licitações vai continuar, assim como praticamente todos os outros mecanismos de favorecimento ao roubo do dinheiro público. A taxa Selic, o superávit primário, a dominação do mercado nacional pelo capital estrangeiro organizado, o comprometimento do PIB com os juros da dívida, tudo isso permanecerá drenando plenamente nossos recursos para fora do país. Os políticos que votamos para nos representar não estão comprometidos conosco, nem com o país, mas sim com eles mesmos e seus correligionários. Basta olhar o passado para notar que nada mudou. Basta olhar para o presente e ter certeza de que, pelo contrário, estamos cada vez mais de joelhos como povo, vendo o desmanche dos mecanismos sociais pela ação da corrupção generalizada. E nada vai mudar, a menos que, de alguma forma, o povo paralise o país.
Mesmo assim, em meio a tantos protestos, bandeiras e reivindicações, algumas cínicas por natureza, existem consciências despertando para a visão global do problema. Talvez o futuro desse cenário, repleto de crises, mude na medida em que o povo obtém a informação. Mesmo que de forma fragmentada, ela está cada vez mais disponível e a Internet é um de seus principais mananciais. Este processo de transformação não pode ser parado. Ele pode ser atrasado, mas é inevitável que aconteça. As tentativas atuais, respaldadas pelo poder político nacional, de restringir o acesso a Internet são uma evidencia clara do que estamos falando. Os direitos sociais, sempre combatidos pela classe política elitista de nosso país, são uma clara ameaça a hegemonia destas autointituladas “elites”. Esta estranha tentativa de gerar um impedimento à presidente Dilma é reflexo auto evidente dos mecanismos internos que a corrupção constrói para gerir-se. A distribuição (com ares de suborno) de cargos para recompor a base de governo também. As tentativas de proteger Lula de um lado e os vazamentos de escutas para imprensa do outro, cada lado burla como pode. Porém, para cada ação, há uma reação. O povo ainda não voltou do coma, mas está reagindo. Mesmo sem fé no futuro do sistema politico atual, permaneço com a esperança dessa transformação. Ela ainda vai demorar, mas virá e o crescente número de grupos ativistas se organizando em diversas frentes é uma indicação de conscientização. Acredito que Lula deve punido. Acredito que a Dilma e toda a corja de corruptos de cada sigla que a rodeia, também. Mas nada disso fará sentido se, com eles, não forem investigados, presos e afastados do poder Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Michel Temer e uns 90% do Congresso Nacional. Nada fará sentido se investigações não forem instauradas em cada Ministério e em cada estado brasileiro para desmascarar governadores, prefeitos, vereadores e até mesmo membros do Poder Judiciário. Enquanto o povo está nas ruas, os corruptos já se movimentam para neutralizá-lo. É preciso ficar atento! Sou a favor do FIM DA CORRUPÇÃO, o que é impossível, e sei que a maioria dos brasileiros também é. Ricos ou pobres, somos nós que pagamos impostos. Ricos ou pobres, somos nós que vivemos, movimentamos e representamos o Brasil. Ricos ou pobres, somos nós que alimentamos o monstro de várias cabeças que nossos políticos criaram. Agora cabe a nós, pelas vias legais e com muita perseverança, acabar com ele!


                                                                                                            

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Cromossomos de besouro" - Um conto sobre Biohacking

                Para discutir um assunto polêmico como o biohacking, tive a ideia de escrever uma introdução puramente imaginativa, com a intenção de adentrar um pouco na mente de cientistas amadores e pesquisadores de garagem que estão revolucionando a relação do homem com a natureza. Mesmo um tanto quanto excêntrico, “Cromossomos de besouro” tem o objetivo apenas de introduzir um assunto quase inesgotável. Pouco conhecido no Brasil, o biohacking ainda vai dar muito o que falar, então que o leitor sinta-se a vontade para comentar no final!

Cromossomos de besouro

Hoje acordei com um besouro meditador incrustrado em minha parede. Meu HD é SempToshiba e eu continuo a olhar aquela criatura, imóvel. Nenhum membro, nenhuma antena se movia, nenhum um sinal de vida naquele corpo ali parado. Eu observei o animal por cinco dias e quatro noites, mas ele continua lá, sem se mover. Penso que coisas passam por sua mente. Imagino que experiências ficaram registradas naquele minúsculo cérebro. Ele continua lá. Imóvel. Paralisado. Aparentemente triste. Será que ele está triste? Será que existe algum sentimento no íntimo daquele ser? Um besouro meditador, era o que ele parecia. Não sei mais o que fazer. Talvez seja apenas um cadáver, ali enrijecido. Duro como a morte. “Libertários não morrem” – foi o que pensei.
Aquele pequenino ser, ali parado, com minúsculas garras firmemente presas nas microfissuras da parede azulada, me passava a impressão de que poderia permanecer ali por mais vinte ou trinta anos. Até se deteriorar tanto que a própria gravidade faria o serviço de removê-lo neste período. Quis retirar aquele animal dali piedosamente. Quis entende-lo e descobrir a razão que o levou a estacionar em minha parede, quando estava bem perto da morte. - “Será que ele está morto?” – me perguntava. Não consegui me compadecer pelo drama que o havia envolvido, mas particularmente interessei-me pela história que aquele animal carregava em seu exoesqueleto marrom-esverdeado. De onde teria vindo? Que espécie de moléculas, ou resquícios delas, carregava em sua carapaça fina? Que histórias de vida se poderia encontrar nos resíduos de poeira, pólen e todo o tipo de matéria na borda inferior de suas asas? Eu sentia o cheiro de Carbono no corpo daquela criatura. Meus implantes nunca me enganavam. Mesmo a um metro e meio dela. Meus braços doíam um pouco, minhas pernas também. Meu laboratório estava abandonado. Minhas anotações já tinham sido espalhadas pelo vento por quase todo o chão da garagem. Meu computador estava pedindo água. Eu precisava desliga-lo.
Arredei para o lado o suporte de rodinhas que improvisei para minha lente de aumento. Pus as duas mãos na cabeça e cocei. Meu viveiro de moscas fluorescentes já não tinha mais nenhum brilho. Esqueci de fechar a janela da porta e também a claraboia. Minhas lesmas médicas tentavam se esconder embaixo de uma pedra de arenito que, por sorte, pus no canto esquerdo do “sacrário”, que construí para elas. Por que me tornei tão relapso? Como me despi de minhas preocupações mais rotineiras? Estou trabalhando há mais de seis meses nas moscas africanas e, agora que consigo fazê-las brilharem por alguns minutos, acabo conhecendo esse besouro misterioso! Meu laboratório precisa de mim. EU preciso de mim! O que o professor Jaques faria em meu lugar? - “Pense, pense!” - Meu microscópio é Zeiss.
Dois anos para produzir Stomoxys calcitrans geneticamente modificadas. Elas têm só doze cromossomos, mas mexer no código fonte é realmente complicado. Não saio mais da minha garagem. Quase nem como. Mas não quero mesmo comer. Primeiro vou terminar com elas. Hackear organismos vivos, só por diversão, tem sido um passatempo e tanto. Não imaginei que mergulharia tão fundo em minhas pesquisas. Eu só queria que meus ratos tivessem olhos azuis! – “É muito pedir isso?” - Fiquei meses sequenciando o genoma deles. Até que descobri onde devia mexer. Tudo graças a entusiastas, como eu, da biologia faça-você-mesmo. Depois de 36 tentativas, agora Alfred e Ziguifrid tem olhinhos azuis que saltam quando alguém os espreme entre as mãos. Infelizmente a mãe deles, Donna, morreu em seguida. Sorte que foram adotados por Debbie, uma adorável ratinha do viveiro 5 que passava o dia amantando e correndo atrás da prole de olhinhos azulados. Quatro deles foram para Cambridge, na Inglaterra, mas Alfred e Ziguifrid estão comigo até hoje.
Depois deles descobri as Escherias Coli. Misturar os genes de diversos organismos vivos com os delas pode trazer resultados muito mais excitantes do que apenas sintetizar hidrocarbonetos. Tive que desistir de minha pesquisa por que o FBI invadiu minha casa, confiscando meus discos rigidos, minhas anotações e levando as Escherias todas com eles. Brutos. Não tiveram o menor cuidado. Acabaram com minhas pesquisas e ainda maltrataram minhas bactérias. Anos de trabalho na mão daqueles maníacos. Mas não perdi nada. Está tudo registrado em minhas memórias. - “Um dia eles me pagam!” - Se não tivesse conseguido fugir para o Rio de Janeiro com um passaporte falso e algumas ameaças, talvez tivessem me enfiado em algum laboratório subterrâneo no Arkansas para que produzisse armas biológicas. Jamais faria algo assim. Não me pegariam vivo. Minha centrífuga é Eppendorf.
Vou ter que tomar uma atitude rapidamente. Não gostei da cor que minhas lesmas adquirem quando entram em contato com o Sol. Era para ficarem rosas, não vermelhas-sangue. Minhas lesmas médicas são o futuro. Minhas moscas africanas conseguiram escapar por uma fresca minúscula. Por sorte seus ciclos de vida são curtos devido as modificações genéticas. Com sorte vão morrer antes de picar alguém. Por sorte não serão capazes de se reproduzirem fora do laboratório, por que criei apenas espécimes fêmeas. Não quero mais ouvir falar das Escherias. Vou desistir das Stomoxys também. Tudo por causa desse magnifico besouro... - “Sim, ele deve estar meditando. Se não está meditando está morto!” - Estou obcecado por essa criatura! O desenho do seu exoesqueleto me fascina... Estou curioso para descobrir que histórias existem em seus élitros embaixo do estojo de quitina. Não aguento mais, preciso removê-lo da parede. Meu microscópio está pronto para ele. Eu me rendo, não aguento mais esperar que ele se mova. Melhor mesmo que esteja morto. Imagino que segredos descobrirei em suas células. Em seu genoma. Em seus cromossomos. Confesso que fico um pouco assustado com as consequências de minhas pesquisas. – “Tudo bem, não vou desistir agora.” -  Estou excitado demais com a ideia de tirá-lo dali. - “Como será que ele vai reagir?” - Vou pousar sua carcaça sobre a bancada. Depois retirar uma amostra de seu corpo enrijecido. Talvez do exoesqueleto. E depositar na placa de Petri. – “Sempre sinto um frio na barriga quando começo tudo de novo!” – Mas quando pus aquele pequenino corpo sobre a bancada não imaginei o que estaria por vir. Aquele simples inseto começara a mudar a minha vida...

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O conto de biohacking “Cromossomos de besouro” é apenas uma tentativa de mergulhar na mente dos adeptos dessa estranha e, ao mesmo tempo, fascinante prática que surgiu recentemente. Nascido do movimento “Biopunk”, grupo de pessoas que produzem biologia sintética baseados nos conceitos da biologia “do-it-your-self”, ou “faça você mesmo”,  o biohacking pode parecer enredo de filme de ficção cientifica, mas está acontecendo agora mesmo em garagens, laboratórios improvisados e sendo feito por empresas que buscam possíveis aplicações comerciais para as novas descobertas. Trata-se de hackear organismos vivos. É exatamente isso. Hackear e depois modificar suas funcionalidades. A maioria dos ativistas do biohacking identificam-se com o tecnoprogressivismo, o transhumanismo e o movimento biopunk. As possibilidades do biohacking são vastas. Vão desde especialistas, engenheiros e técnicos que projetam e instalam no próprio corpo dispositivos tecnológicos com diversas finalidades, como os implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos de Tim Cannon, que tem por objetivo ganhar a habilidade de sentir campos magnéticos, até biólogos e cientistas que produzem sequenciamento genético nos quintais de suas casas.
Nomes como Tuur Van Balen, amante da biologia faça-você-mesmo que manipulou lactobacilos em um iogurte para que produzissem Prozac, tornam mais fáceis de visualizar o horizonte de possibilidades que virão pela frente, em um futuro próximo, quando o assunto é biohacking. Além de modificar as funcionalidades dos lactobacilos, ele gravou um vídeo demostrando passo-a-passo a realização do experimento para deixar claro que qualquer um pode fazer isso com relativa facilidade. Imagine, você pode produzir em casa o seu próprio iogurte antidepressivo. Outro ativista que expande as fronteiras da prática é Tim Cannon, que além dos ímãs de neodímio, implantou no antebraço direito um chip do tamanho de uma carteira de cigarros, capaz de parear com Android e informar dados corporais por bluetooth. Quem também está fazendo pender a balança da popularidade do biohacking é Ellen Jorgensen e seus colegas do laboratório sem fins lucrativos Genspace, no Brooklyn, em Nova York, que levam a biotecnologia até as pessoas comuns. O Genspace disponibiliza uma série de usos práticos, divertidos e até aplicações artísticas e inusitadas da biotecnologia amadora. Mas existem laboratórios assim em vários países como o Ars Electronica, em Linz, na Austria, o Hackerspace, em Singapura, o Labitat na Dinamarca, o Lapaillasse, na França e vários outros em países como a Holanda e também na Indonésia e Reino Unido. No Brasil, o biohacking foi tema estreante na edição brasileira da Campus Party de 2012, tendo ainda pouca expressividade, mas trazendo, entre outras informações, a ideia do projeto Cão Mulato, desenvolvido há mais de dez anos pelo zootecnista e mestre em linguagens visuais Edson Barrus, que pretende criar uma raça mestiça de cachorro para levantar a discussão sobre a manipulação genética.
O biohacking é um tema vasto e polêmico. A cada dia surgem novas ideias, experimentos e iniciativas, mas ao mesmo tempo em que o entusiasmo cresce a ameaça aumenta, pois o risco do bioterrorismo é bastante real. Ok, ele já existia muito antes do biohacking se tornar comum! Para quem se interessar pelo tema seguem algumas dicas de links úteis no final do texto. Bactérias transgênicas, insetos modificados geneticamente, implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos, borboletas com padrões de asas modificadas artisticamente, criando desenhos e cores que não existem na natureza, dispositivos eletrônicos acoplados em corpos, transhumanismo e pós-humanidade... O que vem a seguir? Participe desse debate!

Dicas de links:

http://vimeo.com/57536108

http://www.ted.com/talks/ellen_jorgensen_biohacking_you_can_do_it_too?language=pt-br#t-24961

https://www.youtube.com/watch?v=GcaCP0xDXFA#t=160





domingo, 19 de maio de 2013


"Voltando para o Céu" é uma releitura, de minha autoria, do mito da filiação de Lúcifer à "Casa de Deus". Um tema polêmico, mas que pela beleza das descrições e riqueza de detalhes, vale a pena ser abordado. Em uma prosa poética o tema vira uma história misteriosa que, soando como uma crítica a concepção pré-estipulada de Deus, mexe com as bases daquilo que usamos acreditar serem verdades inquestionáveis!
O "narrador" é um personagem incógnito, que não quer se identificar, apenas relata suas impressões dos eventos fantásticos que presenciou. Sua localização no tempo é imprecisa, sua relevância no contexto geral do eventos, questionável. O Que ele está querendo dizer?.... Deixe sua opinião no final e boa leitura!!!



Voltando para o Céu?
         
         Deus estava “todo Luminosidade” sentado em um enorme trono flamejante. Entre os dedos da sua mão direita escapavam-lhe raios brancos e azuis. Sob a grossa palma da mão esquerda equilibrava um cajado, com sete brilhos diferentes, luzindo aleatoriamente. Um burburinho alto se fazia ao redor, entre os Anjos e Sábios que circulavam ao redor do trono do Pai.
         No centro de tudo aquilo havia uma mesa de madeira branca esplendorosa. Uma toalha claríssima, com bordados de ouro, ofuscava-me o olhar em um tecido desenhado com enfeites de pérolas e diamantes. Rubis, esmeraldas, cristais raros e uma porção de minerais preciosos adornavam o impecável pano que servia de forro para os pés de inúmeras plataformas, onde os mais cobiçados manjares do mundo estavam sendo servidos. Ali, como se fossem compotas de ouro a rutilar, esvoaçantes, no fundo de nossos olhos, os alimentos esperavam, para saciar todo o desejo e fome da “Carne”.
         Sobre aquele “Bem-aventurado” móvel repousavam castiçais refulgentes, dos mais preciosos metais, e um sublime vinho era gotejado por Cupidos nos cálices dos anjos glutões. O Grande Deus afagava a barba devagar, com o olhar suspenso em algum plano exemplar, enquanto Jesus Cristo discursava, eloqüente, para uma multidão de anciãos vestidos de branco. João Batista era só um menino naquela época e passeava com um “Guia de Luz” entre as nuvens mais quentes. Uma aura de Amor e Bondade figurava como plano de fundo naquele quadro abençoado e então uma potente trombeta foi tocada por um anjo louro no canto sudoeste do Céu:

─ Traaaaasaaaaaaaaammmm... Traaaaaanntrannntrannn......
Traaaaaaaaaaaaaaaaannnnnn!!!!

Uma reviravolta, um rebuliço, algo inexplicável aconteceu!! Nuvens de fumaça se espalhavam por todo o salão entre os convidados, como se uma explosão enorme tivesse acabado de acontecer. Uma grossa poeira encobria todos, que tapando bocas e narizes, tencionavam proteger-se do gás que a névoa continha. Entretanto, no fim do arauto do anjo louro, um estrondoso trovão foi ouvido por todo o céu, pois Deus havia dado falta de um dos seus doces filhos. “Mas quem mais poderia ser?”-  perguntavam-se os sábios.
- Lúcifer. Lúcifer! – gritou Deus, empunhando um rude cajado.
 “O Preferido”. – responderam os batráquios angelicais, coachando pelas bordas do “Aquarius Máximus” , instalado no recinto para o prazer dos sábios e anciãos.
Neste momento o anjo Gabriel batia asas em torno do Pai, alertando-lhe da iminente chegada do “Seu Predileto”. Lúcifer foi honrosamente anunciado e então o Grande Deus abriu Seu coração, como fazia com todos os outros Filhos, para recebê-lo no seio de todo o seu Amor.
         Um colossal portal de ouro que surgiu, desconcertante, sobre tudo o que estava organizado no céu acabou se abrindo sobre nós e dele saiu Lúcifer, ululando comemorações em direção ao coração do Pai. O “Anjo” desfilava sob o som de uma orquestra divinal, enquanto choviam pétalas de rosas e louro sobre sua cabeça alva e altiva. O “Preferido de Deus” sorria para o Pai, com os braços abertos. Caminhava devagar, com seu mais valoroso traje. Jesus Cristo virou-se para ver o irmão que chegava, opulento, a marchar cheio de glória. Ele fez um brinde, gritando:
         ― Ave, Lúcifer!
         Lúcifer sorria, amável, para o Pai e seguia rumo ao seu trono. A medida que se aproximava a música subia de tom e todos festejavam a felicidade dos Dois, pois O Preferido estava na presença do Pai.
         Depois de todas as honrarias e de beijar as sandálias do Grande Deus todos sentaram à mesa.
O Pai Celeste discursava autoritário, falando de seu Bom Governo e de como era perfeita a Sua Obra e todos louvavam a Sua sabedoria.
         Depois de abençoar todos os seus filhos, Deus ergueu a estrondosa voz para “O Preferido”, dizendo-lhe:
         ― Pede-me, e terás!
         ― Oooohhhhhh... – um coro sincronizado se vez retumbar por todo o Céu.
         Lúcifer então levantou devagar e olhou sobre as asas de todos os irmãos. As auréolas de todos os Santos e Anjos do céu estavam voltadas para o Filho mais querido que, confiante, sonhava reinar por toda a Plataforma Celeste, como o verdadeiro Rei do Céu e da Terra pode fazer. E ele respondeu:
         ― O Teu Lugar!
         ― Oooohhhhhh... – os anjos replicaram em um novo coro, enquanto tilintavam cálices contra a mesa nos quatro cantos do céu, escandalizados.
         Deus, por alguns segundos, permaneceu mudo. Não podia conceber um desejo destes, mesmo entre os seus filhos. E Lúcifer era o “Seu Preferido”... Pela primeira vez Deus ficou triste. Um alvoroço se fez entre as nuvens de chuva e na Terra uma tempestade devastadora se precipitava sobre os continentes.
Ele levantou-se do Trono e olhou no fundo dos olhos do Filho. Lúcifer amava-o, mas o olhava assustado, e foi se encolhendo na luxuriante poltrona destinada a ele.
         Deus, movido pela ignara atitude do Filho adolescente, o pegou pelo pescoço e o despojou de todos os dons que havia concedido. Atirou o corpo nu do Filho contra o tapete de fios de ouro e de púrpura e bradou:
         ― Acaso pensas que podes ser como Eu?
         Neste instante um negro e tenebroso abismo se abriu sob os pés de Lúcifer e ali pairou, prestes a engolir a ele e a toda a Corte de Deus ali presente. Enquanto o desespero ecoava em brados angelicais, subindo em ecos pelas paredes do templo, Deus repetiu a pergunta, com o olhar em chamas, flutuando sob a boca do abismo:
― Acaso pensas que podes ser como Eu? – e então sua voz bradou tão fortemente pelas nuvens que todos foram arremessados a metros de distância, em uma explosão sonora, assim como centenas de trovões!
         Depois deste enorme surto Deus olhou para o “céu do Céu” e, depois de um suspiro, soltou suavemente Lúcifer no olho do buraco negro. Naquele momento por ele quedaram todos os amigos íntimos e conselheiros do malfadado Anjo. Um furacão se fez, devastando toda a corte de Deus e quando findou não restava pedra sobre pedra. O Pai fechou-se para os demais em um Cubo Estelar e chorou por milênios a fio.
         Lúcifer e seus colaboradores foram sumariamente atirados para os confins da Terra, nos desertos mais tórridos do planeta, para que lá expiassem. Dizem que, até hoje, os Santos e Anjos não ousam cruzar os limites daquelas regiões. Um eclipse lunar adornou o céu de ponta a ponta em um manto escuro até o furor do Pai se acalmar.
Quando a paz no Céu foi restaurada Deus voltou o olhar para a sua mais nova criação: a Terra! E viu que, àquela altura, ela estava em chamas! Lúcifer tinha se tornado um rebelde endiabrado e pretendia acabar com toda a obra do Pai, fomentando o ódio entre os seres humanos. Depois disso Deus, confuso, abandonou o mundo a própria sorte e então um negrume sem precedentes o envolveu. Era a Kalli Yuga, a Era das Trevas.
        Nuvens carregadas revolveram-se no céu, provocando um dilúvio, mas Lúcifer, “aquele que é feito de luz” se protegeu nos mundos inferiores.
         Deus, em uma última tentativa de acolher novamente o Filho em Seu Seio, mudou seu perfil autoritário e enviou à Terra Jesus, trazendo uma nova visão Dele. Mas Lúcifer o matou.
Em meu vilarejo dizem que Deus só será bom de novo quando Lúcifer voltar para o Céu e que, desde aquela remota época destes acontecimento, somente alguns Santos e os nossos Anjos de Guarda é que podem ouvir nossas preces. Segundo aqueles nativos: "A Terra permanecerá envolta em nuvens de fogo até que finde a idade imatura do Filho desgarrado e até lá os homens continuarão sendo assombrados por Demônios e esquecidos por Deus".
         Mas, se no Universo a entropia sempre aumenta, existirá apenas uma lei? E o que ela dirá, se nada é impossível? Lúcifer, “Aquele que é feito de Luz” voltará para o Céu?