domingo, 19 de maio de 2013


"Voltando para o Céu" é uma releitura, de minha autoria, do mito da filiação de Lúcifer à "Casa de Deus". Um tema polêmico, mas que pela beleza das descrições e riqueza de detalhes, vale a pena ser abordado. Em uma prosa poética o tema vira uma história misteriosa que, soando como uma crítica a concepção pré-estipulada de Deus, mexe com as bases daquilo que usamos acreditar serem verdades inquestionáveis!
O "narrador" é um personagem incógnito, que não quer se identificar, apenas relata suas impressões dos eventos fantásticos que presenciou. Sua localização no tempo é imprecisa, sua relevância no contexto geral do eventos, questionável. O Que ele está querendo dizer?.... Deixe sua opinião no final e boa leitura!!!



Voltando para o Céu?
         
         Deus estava “todo Luminosidade” sentado em um enorme trono flamejante. Entre os dedos da sua mão direita escapavam-lhe raios brancos e azuis. Sob a grossa palma da mão esquerda equilibrava um cajado, com sete brilhos diferentes, luzindo aleatoriamente. Um burburinho alto se fazia ao redor, entre os Anjos e Sábios que circulavam ao redor do trono do Pai.
         No centro de tudo aquilo havia uma mesa de madeira branca esplendorosa. Uma toalha claríssima, com bordados de ouro, ofuscava-me o olhar em um tecido desenhado com enfeites de pérolas e diamantes. Rubis, esmeraldas, cristais raros e uma porção de minerais preciosos adornavam o impecável pano que servia de forro para os pés de inúmeras plataformas, onde os mais cobiçados manjares do mundo estavam sendo servidos. Ali, como se fossem compotas de ouro a rutilar, esvoaçantes, no fundo de nossos olhos, os alimentos esperavam, para saciar todo o desejo e fome da “Carne”.
         Sobre aquele “Bem-aventurado” móvel repousavam castiçais refulgentes, dos mais preciosos metais, e um sublime vinho era gotejado por Cupidos nos cálices dos anjos glutões. O Grande Deus afagava a barba devagar, com o olhar suspenso em algum plano exemplar, enquanto Jesus Cristo discursava, eloqüente, para uma multidão de anciãos vestidos de branco. João Batista era só um menino naquela época e passeava com um “Guia de Luz” entre as nuvens mais quentes. Uma aura de Amor e Bondade figurava como plano de fundo naquele quadro abençoado e então uma potente trombeta foi tocada por um anjo louro no canto sudoeste do Céu:

─ Traaaaasaaaaaaaaammmm... Traaaaaanntrannntrannn......
Traaaaaaaaaaaaaaaaannnnnn!!!!

Uma reviravolta, um rebuliço, algo inexplicável aconteceu!! Nuvens de fumaça se espalhavam por todo o salão entre os convidados, como se uma explosão enorme tivesse acabado de acontecer. Uma grossa poeira encobria todos, que tapando bocas e narizes, tencionavam proteger-se do gás que a névoa continha. Entretanto, no fim do arauto do anjo louro, um estrondoso trovão foi ouvido por todo o céu, pois Deus havia dado falta de um dos seus doces filhos. “Mas quem mais poderia ser?”-  perguntavam-se os sábios.
- Lúcifer. Lúcifer! – gritou Deus, empunhando um rude cajado.
 “O Preferido”. – responderam os batráquios angelicais, coachando pelas bordas do “Aquarius Máximus” , instalado no recinto para o prazer dos sábios e anciãos.
Neste momento o anjo Gabriel batia asas em torno do Pai, alertando-lhe da iminente chegada do “Seu Predileto”. Lúcifer foi honrosamente anunciado e então o Grande Deus abriu Seu coração, como fazia com todos os outros Filhos, para recebê-lo no seio de todo o seu Amor.
         Um colossal portal de ouro que surgiu, desconcertante, sobre tudo o que estava organizado no céu acabou se abrindo sobre nós e dele saiu Lúcifer, ululando comemorações em direção ao coração do Pai. O “Anjo” desfilava sob o som de uma orquestra divinal, enquanto choviam pétalas de rosas e louro sobre sua cabeça alva e altiva. O “Preferido de Deus” sorria para o Pai, com os braços abertos. Caminhava devagar, com seu mais valoroso traje. Jesus Cristo virou-se para ver o irmão que chegava, opulento, a marchar cheio de glória. Ele fez um brinde, gritando:
         ― Ave, Lúcifer!
         Lúcifer sorria, amável, para o Pai e seguia rumo ao seu trono. A medida que se aproximava a música subia de tom e todos festejavam a felicidade dos Dois, pois O Preferido estava na presença do Pai.
         Depois de todas as honrarias e de beijar as sandálias do Grande Deus todos sentaram à mesa.
O Pai Celeste discursava autoritário, falando de seu Bom Governo e de como era perfeita a Sua Obra e todos louvavam a Sua sabedoria.
         Depois de abençoar todos os seus filhos, Deus ergueu a estrondosa voz para “O Preferido”, dizendo-lhe:
         ― Pede-me, e terás!
         ― Oooohhhhhh... – um coro sincronizado se vez retumbar por todo o Céu.
         Lúcifer então levantou devagar e olhou sobre as asas de todos os irmãos. As auréolas de todos os Santos e Anjos do céu estavam voltadas para o Filho mais querido que, confiante, sonhava reinar por toda a Plataforma Celeste, como o verdadeiro Rei do Céu e da Terra pode fazer. E ele respondeu:
         ― O Teu Lugar!
         ― Oooohhhhhh... – os anjos replicaram em um novo coro, enquanto tilintavam cálices contra a mesa nos quatro cantos do céu, escandalizados.
         Deus, por alguns segundos, permaneceu mudo. Não podia conceber um desejo destes, mesmo entre os seus filhos. E Lúcifer era o “Seu Preferido”... Pela primeira vez Deus ficou triste. Um alvoroço se fez entre as nuvens de chuva e na Terra uma tempestade devastadora se precipitava sobre os continentes.
Ele levantou-se do Trono e olhou no fundo dos olhos do Filho. Lúcifer amava-o, mas o olhava assustado, e foi se encolhendo na luxuriante poltrona destinada a ele.
         Deus, movido pela ignara atitude do Filho adolescente, o pegou pelo pescoço e o despojou de todos os dons que havia concedido. Atirou o corpo nu do Filho contra o tapete de fios de ouro e de púrpura e bradou:
         ― Acaso pensas que podes ser como Eu?
         Neste instante um negro e tenebroso abismo se abriu sob os pés de Lúcifer e ali pairou, prestes a engolir a ele e a toda a Corte de Deus ali presente. Enquanto o desespero ecoava em brados angelicais, subindo em ecos pelas paredes do templo, Deus repetiu a pergunta, com o olhar em chamas, flutuando sob a boca do abismo:
― Acaso pensas que podes ser como Eu? – e então sua voz bradou tão fortemente pelas nuvens que todos foram arremessados a metros de distância, em uma explosão sonora, assim como centenas de trovões!
         Depois deste enorme surto Deus olhou para o “céu do Céu” e, depois de um suspiro, soltou suavemente Lúcifer no olho do buraco negro. Naquele momento por ele quedaram todos os amigos íntimos e conselheiros do malfadado Anjo. Um furacão se fez, devastando toda a corte de Deus e quando findou não restava pedra sobre pedra. O Pai fechou-se para os demais em um Cubo Estelar e chorou por milênios a fio.
         Lúcifer e seus colaboradores foram sumariamente atirados para os confins da Terra, nos desertos mais tórridos do planeta, para que lá expiassem. Dizem que, até hoje, os Santos e Anjos não ousam cruzar os limites daquelas regiões. Um eclipse lunar adornou o céu de ponta a ponta em um manto escuro até o furor do Pai se acalmar.
Quando a paz no Céu foi restaurada Deus voltou o olhar para a sua mais nova criação: a Terra! E viu que, àquela altura, ela estava em chamas! Lúcifer tinha se tornado um rebelde endiabrado e pretendia acabar com toda a obra do Pai, fomentando o ódio entre os seres humanos. Depois disso Deus, confuso, abandonou o mundo a própria sorte e então um negrume sem precedentes o envolveu. Era a Kalli Yuga, a Era das Trevas.
        Nuvens carregadas revolveram-se no céu, provocando um dilúvio, mas Lúcifer, “aquele que é feito de luz” se protegeu nos mundos inferiores.
         Deus, em uma última tentativa de acolher novamente o Filho em Seu Seio, mudou seu perfil autoritário e enviou à Terra Jesus, trazendo uma nova visão Dele. Mas Lúcifer o matou.
Em meu vilarejo dizem que Deus só será bom de novo quando Lúcifer voltar para o Céu e que, desde aquela remota época destes acontecimento, somente alguns Santos e os nossos Anjos de Guarda é que podem ouvir nossas preces. Segundo aqueles nativos: "A Terra permanecerá envolta em nuvens de fogo até que finde a idade imatura do Filho desgarrado e até lá os homens continuarão sendo assombrados por Demônios e esquecidos por Deus".
         Mas, se no Universo a entropia sempre aumenta, existirá apenas uma lei? E o que ela dirá, se nada é impossível? Lúcifer, “Aquele que é feito de Luz” voltará para o Céu?
          



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