"Voltando para o Céu" é uma releitura, de minha autoria, do mito da filiação de Lúcifer à "Casa de Deus". Um tema polêmico, mas que pela beleza das descrições e riqueza de detalhes, vale a pena ser abordado. Em uma prosa poética o tema vira uma história misteriosa que, soando como uma crítica a concepção pré-estipulada de Deus, mexe com as bases daquilo que usamos acreditar serem verdades inquestionáveis!
O "narrador" é um personagem incógnito, que não quer se identificar, apenas relata suas impressões dos eventos fantásticos que presenciou. Sua localização no tempo é imprecisa, sua relevância no contexto geral do eventos, questionável. O Que ele está querendo dizer?.... Deixe sua opinião no final e boa leitura!!!
Voltando para o Céu?
Deus estava “todo Luminosidade” sentado em um enorme trono flamejante. Entre os
dedos da sua mão direita escapavam-lhe raios brancos e azuis. Sob a grossa
palma da mão esquerda equilibrava um cajado, com sete brilhos diferentes, luzindo
aleatoriamente. Um burburinho alto se fazia ao redor, entre os Anjos e Sábios
que circulavam ao redor do trono do Pai.
No centro de tudo aquilo havia uma mesa
de madeira branca esplendorosa. Uma toalha claríssima, com bordados de ouro,
ofuscava-me o olhar em um tecido desenhado com enfeites de pérolas e diamantes.
Rubis, esmeraldas, cristais raros e uma porção de minerais preciosos adornavam
o impecável pano que servia de forro para os pés de inúmeras plataformas, onde
os mais cobiçados manjares do mundo estavam sendo servidos. Ali, como se fossem
compotas de ouro a rutilar, esvoaçantes, no fundo de nossos olhos, os alimentos
esperavam, para saciar todo o desejo e fome da “Carne”.
Sobre aquele “Bem-aventurado” móvel repousavam castiçais refulgentes, dos mais
preciosos metais, e um sublime vinho era gotejado por Cupidos nos cálices dos
anjos glutões. O Grande Deus afagava a barba devagar, com o olhar suspenso em
algum plano exemplar, enquanto Jesus Cristo discursava, eloqüente, para uma
multidão de anciãos vestidos de branco. João Batista era só um menino naquela
época e passeava com um “Guia de Luz”
entre as nuvens mais quentes. Uma aura de Amor e Bondade figurava como plano de
fundo naquele quadro abençoado e então uma potente trombeta foi tocada por um
anjo louro no canto sudoeste do Céu:
─ Traaaaasaaaaaaaaammmm...
Traaaaaanntrannntrannn......
Traaaaaaaaaaaaaaaaannnnnn!!!!
Uma reviravolta, um rebuliço,
algo inexplicável aconteceu!! Nuvens de fumaça se espalhavam por todo o salão
entre os convidados, como se uma explosão enorme tivesse acabado de acontecer.
Uma grossa poeira encobria todos, que tapando bocas e narizes, tencionavam
proteger-se do gás que a névoa continha. Entretanto, no fim do arauto do anjo
louro, um estrondoso trovão foi ouvido por todo o céu, pois Deus havia dado falta
de um dos seus doces filhos. “Mas quem
mais poderia ser?”- perguntavam-se
os sábios.
- Lúcifer. Lúcifer! – gritou
Deus, empunhando um rude cajado.
“O Preferido”. – responderam os batráquios
angelicais, coachando pelas bordas do “Aquarius
Máximus” , instalado no recinto para o prazer dos sábios e anciãos.
Neste momento o anjo Gabriel
batia asas em torno do Pai, alertando-lhe da iminente chegada do “Seu Predileto”. Lúcifer foi
honrosamente anunciado e então o Grande Deus abriu Seu coração, como fazia com
todos os outros Filhos, para recebê-lo no seio de todo o seu Amor.
Um colossal portal de ouro que surgiu,
desconcertante, sobre tudo o que estava organizado no céu acabou se abrindo sobre
nós e dele saiu Lúcifer, ululando comemorações em direção ao coração do Pai. O “Anjo” desfilava sob o som de uma
orquestra divinal, enquanto choviam pétalas de rosas e louro sobre sua cabeça alva
e altiva. O “Preferido de Deus”
sorria para o Pai, com os braços abertos. Caminhava devagar, com seu mais
valoroso traje. Jesus Cristo virou-se para ver o irmão que chegava, opulento, a
marchar cheio de glória. Ele fez um brinde, gritando:
― Ave, Lúcifer!
Lúcifer sorria, amável, para o Pai e
seguia rumo ao seu trono. A medida que se aproximava a música subia de tom e
todos festejavam a felicidade dos Dois, pois O Preferido estava na presença do
Pai.
Depois de todas as honrarias e de
beijar as sandálias do Grande Deus todos sentaram à mesa.
O Pai Celeste discursava
autoritário, falando de seu Bom Governo e de como era perfeita a Sua Obra e
todos louvavam a Sua sabedoria.
Depois de abençoar todos os seus filhos,
Deus ergueu a estrondosa voz para “O
Preferido”, dizendo-lhe:
― Pede-me, e terás!
― Oooohhhhhh... – um coro sincronizado
se vez retumbar por todo o Céu.
Lúcifer então levantou devagar e olhou
sobre as asas de todos os irmãos. As auréolas de todos os Santos e Anjos do céu
estavam voltadas para o Filho mais querido que, confiante, sonhava reinar por
toda a Plataforma Celeste, como o
verdadeiro Rei do Céu e da Terra pode
fazer. E ele respondeu:
― O
Teu Lugar!
― Oooohhhhhh... – os anjos replicaram
em um novo coro, enquanto tilintavam cálices contra a mesa nos quatro cantos do
céu, escandalizados.
Deus, por alguns segundos, permaneceu
mudo. Não podia conceber um desejo destes, mesmo entre os seus filhos. E
Lúcifer era o “Seu Preferido”... Pela
primeira vez Deus ficou triste. Um alvoroço se fez entre as nuvens de chuva e
na Terra uma tempestade devastadora se precipitava sobre os continentes.
Ele levantou-se do Trono e
olhou no fundo dos olhos do Filho. Lúcifer amava-o, mas o olhava assustado, e
foi se encolhendo na luxuriante poltrona destinada a ele.
Deus, movido pela ignara atitude do
Filho adolescente, o pegou pelo pescoço e o despojou de todos os dons que havia
concedido. Atirou o corpo nu do Filho contra o tapete de fios de ouro e de
púrpura e bradou:
― Acaso pensas que podes ser como Eu?
Neste instante um negro e tenebroso
abismo se abriu sob os pés de Lúcifer e ali pairou, prestes a engolir a ele e a
toda a Corte de Deus ali presente. Enquanto o desespero ecoava em brados
angelicais, subindo em ecos pelas paredes do templo, Deus repetiu a pergunta,
com o olhar em chamas, flutuando sob a boca do abismo:
― Acaso pensas que podes ser
como Eu? – e então sua voz bradou tão
fortemente pelas nuvens que todos foram arremessados a metros de distância, em
uma explosão sonora, assim como centenas de trovões!
Depois
deste enorme surto Deus olhou para o “céu
do Céu” e, depois de um suspiro, soltou suavemente Lúcifer no olho do
buraco negro. Naquele momento por ele quedaram todos os amigos íntimos e
conselheiros do malfadado Anjo. Um furacão se fez, devastando toda a corte de
Deus e quando findou não restava pedra sobre pedra. O Pai fechou-se para os
demais em um Cubo Estelar e chorou por milênios a fio.
Lúcifer e seus colaboradores foram
sumariamente atirados para os confins da Terra, nos desertos mais tórridos do
planeta, para que lá expiassem. Dizem que, até hoje, os Santos e Anjos não
ousam cruzar os limites daquelas regiões. Um eclipse lunar adornou o céu de
ponta a ponta em um manto escuro até o furor do Pai se acalmar.
Quando a paz no Céu foi
restaurada Deus voltou o olhar para a sua mais nova criação: a Terra! E viu que,
àquela altura, ela estava em chamas! Lúcifer tinha se tornado um rebelde
endiabrado e pretendia acabar com toda a obra do Pai, fomentando o ódio entre
os seres humanos. Depois disso Deus, confuso, abandonou o mundo a própria sorte
e então um negrume sem precedentes o envolveu. Era a Kalli Yuga, a Era das
Trevas.
Nuvens carregadas revolveram-se no céu,
provocando um dilúvio, mas Lúcifer, “aquele que é feito de luz” se protegeu nos
mundos inferiores.
Deus, em uma última tentativa de
acolher novamente o Filho em Seu Seio, mudou seu perfil autoritário e enviou à
Terra Jesus, trazendo uma nova visão Dele. Mas Lúcifer o matou.
Em meu vilarejo dizem que Deus só será bom de
novo quando Lúcifer voltar para o Céu e que, desde aquela remota época destes acontecimento, somente
alguns Santos e os nossos Anjos de Guarda é que podem ouvir nossas preces. Segundo aqueles nativos: "A
Terra permanecerá envolta em nuvens de fogo até que finde a idade imatura do
Filho desgarrado e até lá os homens continuarão sendo assombrados por Demônios e
esquecidos por Deus".
Mas, se no Universo a entropia sempre aumenta, existirá apenas uma lei? E o que ela dirá, se nada é impossível? Lúcifer, “Aquele que é feito de Luz” voltará
para o Céu?

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